
Vamos dizer que as coisas não aconteceram da forma como eu estou falando. É só um ponto de vista, dentre tantos outros pontos de vista, esses que vão do céu ao inferno, e passam por eles, sobre eles, entre cada intersecção com ele mesmo, todas as possibilidades contidas na finitude de uma história. Por exemplo, Julieta entendeu tudo errado.
Acatar um modo de contar história é um risco que deve ser tomado. O valor da verdade, acredito, vale tanto quanto o poder de transformar grão em pão – tem que morrer para germinar, ressuscitar no chão. Me ensinaram diferente, mas eu prefiro acreditar dessa forma.
Contornando a casa que dava para a pequena estalagem, morava uma menina de cabelos cacheados e tranças nos cabelos. As tranças não disfarçavam sua meninice que saltava por entre suas roupas de camponesa, e ela sempre ria quando o moço que também tinha cabelos cacheados falava que ela usava roupas de camponesa em pleno século XVIII, na agitação que ficava a 50 km da capital, embora muita gente ainda achasse que isso fosse muito pouca distância e se considerava natural de lá, da capital. Ela não pensava assim e tinha muita gente que concordava com ela, sobretudo os mais velhos. Se alguém pudesse chamar aquela fazenda de cidade, era uma cidade construída de frente para um riacho, o Grande Rio dos Destinos, que mudava seu curso de acordo com as tranças no cabelo da menina. Isso ela só foi perceber mais tarde, porque teve um dia em que o rio parou – e mesmo assim, rio que vira lago na frente de toda cidade, ninguém pode dar aviso de que se tratava dos arredores o que tinha acontecido com o rio.
- Você se veste como uma camponesa.
Não era nada além de uma voz fria, que emerge dos cantos mais profundos da mente quando se deseja tomar à força uma memória que estava esquecida. É porque era uma memória boa, dos tempos de criança, quando os planos eram feitos e construídos e terminados no mesmo dia, na mesma tarde, na rede. Não era mais assim. Tudo agora era planejado, e tinha um bocado de gente que se sentava justinho embaixo da árvore de amora, a preferida, para ler, para sonhar, para namorar. Era uma nova era que se iniciava, e ela tinha medo de se perder dentro da solidez pálida que cobria grande parte das coisas que ela tentava tocar.
A vizinhança tinha a deixado em paz por um momento. É que logo na reunião para se decidir sobre as aplicações universitárias, coisa muito corriqueira naquela época e naquele lugar, da maneira como eu estou falando, acontecia de vir um indicado Real – porque ainda o Condado era reinado e não simplesmente governado sem fidelidade como se costumava fazer mais que antigamente e no futuro não muito longe. E os jovens se reuniam, e conversavam a respeito do que queriam estudar, se era Artes, se era Medicina, se era Literatura ou... ou alguma dessas outras coisas que também são importantes, mas que não me lembro de cor. Mas, para a menina, não perguntaram qual dos três ela preferia. Perguntaram: o que é que você mais deseja na vida?
Era a vez dela. Ela ficou encantada, em primeiro lugar, pelo lugar para onde levaram os jovens da Grande Cidade: era uma construção completamente nova, dessas que se demoram para dar conta do que realmente é, ou melhor, para fazer a relação, a partir dos indícios que os tijolos verdes do lado de fora deixavam, entre o que estava antes e depois daquela Grande Casa da Árvore construída no mesmo nível que todas as outras, mas muito maior, em tamanho de chão até o teto. E havia vidros na parede que dava pra frente e na que dava pros fundos, de modo que a luz do Sol podia muito que bem passar por lá sem sofrer muitas refrações e chegar até o outro lado, ainda forte para iluminar o jardim de margaridas. A primeira vez que a menina olhou, só viu margaridas. Em segundo lugar, o que também era encantador, eram as pinturas, milhares de réplicas de Colazine dei Canottieri, em todo o teto, mil vezes, eram mais?
E durante a sua contagem, de quantas filles au verre d'eau tinham desenhado - eram catorze, mas nunca dava para ter certeza -, era como se uma nova imagem dela aparecesse a mais, ao final de cada cômputo.
- E você, menina? Parece mais nova do que seus pais disseram quando fizeram sua candidatura (e, como sempre, um sorriso cortês por parte de homens engravatados – aquilo era simplesmente tão enfadonho). O que é que mais deseja na vida?
Quase disse “dessa vez, eu tenho certeza, são catorze”, mas seus lábios calaram quando sentiu todos os olhares dos futuros Senhores da Sabedoria da Grande Cidade caírem sobre si. Sentiu olhos de ódio, de desejo, de culpa, de inveja, de perdão, de maldade, de zombaria, de calúnia, de admiração, de vontade de dar as mãos, de segredos, de traição, de compaixão, de amizade, tudo isso misturado, não dava para saber de quem era o que, tampouco o que era de quem, mas no final ela tentou se fechar o coração para prestar atenção no que ela via de realidade. Pensou...
- Eu quero o desejo do meu coração.
Foi nessa hora que o rio parou. A trança do lado esquerdo tinha se desfeito, com o vento, talvez, ou algum dos olhares era um de desfazer tranças, mas o que importava é que não havia mais tranças e que isso era muito importante para a menina, bem menos importante que o rio, que o Grande Rio da Grande Cidade. Tudo se passou muito rápido, a menos que ela, como eu disse, tenha interpretado mal a história, mas o que realmente parece, para mim e para ela também é que foi coisa de acontecer e acabou assim mesmo.
Ela nunca desistiria do desejo do seu coração, ainda que o curso mudasse e as águas escorressem para outro canto, bem longe dali, qualquer lugar era perto para as coisas que ela queria. As escadas da casa de tijolos verdes, ela pensava, eram escadas do diabo. Quem é que sabe para onde ela poderia levá-la? Tão íngremes também o são as escadas do coração, mas ela esquecia disso todas as vezes que fitava certos olhos de tijolos verdes.
Todas as vezes em que ela fazia uma trança antes de dormir, uma bruxa daquelas altas, de nariz feio e pontudo que nem a bruxa mãe, dentes amarelados e cheirando perfume da moda, entrava no seu quarto. Ela dormia, claro, e tinha sonhos felizes, como sempre fazia quando trançava o cabelo. Mas a bruxa vinha, e comia um pedacinho do cabelo da menina.
Com três fios ainda é possível fazer uma trança.
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FRIAR LAURENCE
I hear some noise. Lady, come from that nest
Of death, contagion, and unnatural sleep.
A greater power than we can contradict
Hath thwarted our intents. Come, come away.
Thy husband in thy bosom there lies dead;
And Paris too. Come, I'll dispose of thee
Among a sisterhood of holy nuns:
Stay not to question, for the watch is coming;
Come, go, good Juliet